CAMINHOS DA MEDICINA

 

                                               Maria Angélica Rezende Silveira

 

                   A medicina moderna se debate hoje com vários problemas na área de saúde e um deles, talvez um dos mais graves é a mercantilização da medicina.

                   Quando a medicina passa a ser olhada como um negócio e não um serviço, o resultado é o desgaste da relação médico-paciente e também das relações com os colegas.

                   O paciente deixa de ser olhado como um ser humano e sim como uma doença, e passa a ser apenas um consumidor.

                   Com a prevalência da visão da doença, e não da pessoa que está sendo tratada, o seu atendimento passa a ser realizado através de protocolos e a sua individualidade é esquecida , afastada, para dar lugar a um procedimento comum a todos que se enquadram naquele diagnóstico, e o pior, muitas vezes antes mesmo do diagnóstico ser concluído.

                   A maioria dos médicos escolheu a medicina pelo desejo de desenvolver relações com os pacientes, e não para maximizar suas receitas, mas infelizmente para alguns, o trabalho se tornou apenas um trabalho, e isso não é bom, porque desaparece o idealismo que é o grande alimento de toda profissão.

                   Em artigo publicado no New York Times Sandeep Janhar faz a seguinte afirmação: “os médicos estão se tornando mais administradores e menos cuidadores”.

                   Isso é um grande perigo, porque na visão do administrador, a prioridade é equilibrar as receitas com as despesas, obtendo-se sempre um superávit, o que pode motivar exames e procedimentos que onerem desnecessariamente o paciente ou o plano de saúde que lhe dá cobertura.

                   Os hospitais e clínicas particulares por sua vez, visando um melhor resultado financeiro, estão cobrando dos planos de saúde e mesmo dos pacientes, valores superiores aos que pagam na aquisição de determinados materiais a serem utilizados no tratamento do paciente, adicionando a esses, taxas e sobretaxas, principalmente quando se tratam de órteses e próteses necessárias à algumas cirurgias.

                   Essa postura irregular vem sendo utilizada sem que haja nenhuma fiscalização por parte dos órgãos competentes, e embora prestadores de serviços, essas unidades de saúde, passam a exercer atos de comercio, sem que paguem nenhum imposto sobre esse rendimento auferido, que diga-se de passagem, oneram e muitas vezes inviabilizam o tratamento dos pacientes pelo aumento substancial do custo.

                   Por outro lado, os Planos de Saúde, pela falta de uma efetiva fiscalização da ANS vêm negando cobertura de determinadas terapias, e exigindo que se exclua determinada opção terapêutica, mesmo em doenças que estão agasalhadas no contrato que tem com o paciente.

                   Esse procedimento é irregular e danoso para o paciente, porque o que os planos podem dispor, é sobre as patologias cobertas e não sobre o tipo de tratamento para cada patologia, pois a empresa não pode substituir o médico, conforme já decidiu o STJ no Resp 668.216-SP.

                   Tudo isso vai na contra mão atingir diretamente o paciente, colocando em risco o atendimento médico.

                   Hoje, o exercício da medicina no Brasil se debate com vários problemas, entre outros, com a falta de recursos humanos, materiais e equipamentos nas unidades e serviços de saúde ,que aliada ao número excessivo de pacientes e ao pouco tempo dedicado a cada um, seja no momento da consulta ou na internação tem prejudicado o paciente. Há também a se considerar, as restrições de coberturas, limitações de atendimentos e exames por parte dos planos privados de saúde, além das más condições de trabalho e de remuneração do médico, que o obriga ao acúmulo de empregos e atividades, e que vai causar estresse profissional e falta de tempo para se dedicar a uma melhor atualização profissional.

                   Todas essas coisas fazem com que os pacientes não recebam um bom atendimento médico e seja colocada em risco a sua saúde e muitas vezes a sua própria vida.

                   É preciso repensar sobre esses fatos que estão sendo impostos à sociedade, e que refletem diretamente no atendimento dos pacientes, e se buscar soluções que viabilizem o funcionamento regular das unidades de saúde , dê sustentabilidade aos Planos de Saúde, mas que garantam ao paciente um bom atendimento de saúde, o que não vem acontecendo.

                   É necessário e urgente, que os órgãos competentes como o Ministério Público, o Ministério da Saúde, a ANS , o Conselho Regional de Medicina e a Fazenda Pública Estadual estejam atentos às suas funções para que sejam corrigidas as distorções existentes e se garanta o respeito aos direitos dos pacientes, que é assegurado pela Constituição Federal