IDEIAS PARA REFLEXÃO

Um sistema que combine a qualidade de gestão da Holanda, o acesso a atendimento implementado no Chile e a visão tecnológica de Canadá ou Reino Unido, dois países onde a saúde é socializada. Este seria o país ideal, na opinião de médicos, pesquisadores e gestores consultados por ZH. Só a combinação de modelos poderia acomodar diferenças sociais de um país continental como o Brasil, com realidades econômicas, estruturas e até condições climáticas diferentes. 

 

—Temos o Sistema Único de Saúde (SUS), mas há países diferentes dentro de um mesmo Brasil: o Norte, o Nordeste e o Sul-Sudeste. Se mesclarmos Sul-Sudeste com Norte e Nordeste, teremos um país meio europeu com realidades africanas. E precisamos de um sistema de saúde público que dê cobertura a esses três países —avalia o médico Jaderson Costa da Costa, presidente do projeto Instituto do Cérebro do RS (InsCer) e vice-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). 

Em 2016, o periódico científico Lancet, referência mundial em medicina, publicou um artigo de pesquisadores que fizeram um inédito diagnóstico sobre o acesso a serviços de saúde em 195 países baseado na mortalidade relacionada a doenças que poderiam ser prevenidas ou tratadas. O Healthcare Access and Quality Index colocou a Holanda em quarto lugar, com 90 pontos (em nota que vai de zero a cem), empatada com Suécia, Noruega, Austrália, Finlândia e Espanha. Na busca por modelos para reduzir o gargalo brasileiro, pesquisadores, entretanto fogem da realidade europeia. Debruçam-se sobre o exemplo do Chile, única nação sul-americana entre os 50 melhores (76 pontos). O Brasil aparece em 95º, com 65.

—O Chile facilitou acesso da população aos cuidados de saúde e a tratamento de doenças que são plenamente curáveis ou capazes de ser prevenidas. O ideal seria nota cem. Mas é 10 vezes melhor do que a nossa. Nosso país tinha indicativos muito bons em relação à vacinação, mas está perdendo, e, quando se começa a perder, se é penalizado —avalia Jaderson.

O índice engloba 32 causas de morte consideradas evitáveis, desde que haja assistência médica de qualidade. Tratam-se de doenças que poderiam ter sido evitadas por vacinação ou que estão relacionadas à saúde materno-infantil, por exemplo, ou enfermidades infecciosas, transmissíveis e cardiovasculares, além do diabetes, entre outras. Um novo estudo da Lancet, divulgado nesta semana, mostrou que só acesso é insuficiente, se o atendimento for precário. Estima-se que 5 milhões de mortes por ano em países de média e baixa renda sejam resultado de atendimento médico precário, número que supera os óbitos por falta de acesso aos sistemas de saúde (3,6 milhões). Falta de respeito,  preconceito, e consultas rápidas e falhas estão entre os principais problemas listados por 30 acadêmicos da Comissão de Saúde Global de Alta Qualidade, um projeto financiado pela Fundação Bill e Melina Gates. Segundo a estimativa do estudo, no Brasil, 153 mil mortes por ano são causadas pelo atendimento de má qualidade e 51 mil por falta de acesso a atendimento de saúde.

Na Holanda, um projeto revolucionou a atenção básica e foi reconhecido pelo World Economic Forum pela relevância. Criado em 2007 pelo enfermeiro Dos de Blok, o projeto Buurtzorg (cuidado de vizinhança, em tradução livre) consiste em pequenos grupos de 12 enfermeiros responsáveis por 40 a 60 moradores de um bairro. A iniciativa contava no início com quatro profissionais. Hoje são 8 mil, que percorrem ruas como consultores de saúde, enfatizando bons hábitos para prevenção de doenças, e se encarregam de tarefas como dar banho e trocar roupa em pacientes com dificuldades de deslocamento. Cada grupo é independente e atende às demandas de um bairro. 

No Brasil, a saúde primária é apontada por especialistas não apenas como fundamental para prevenção, mas principalmente para resolver problemas como a lotação dos grandes hospitais. 

—O Brasil se orgulha de ter uma Constituição, de 1988, que criou o SUS, pelo qual a saúde é um dever do Estado, só esqueceram de um detalhe: quem paga a conta? Isso não é para um país que tem os problemas econômicos como os nossos. Não é sustentável, não consegue ter uma rede pública organizada de ambulatório, de atenção básica. Estoura nos grandes hospitais —aponta Nadine Clausell, diretora-presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Os modelos britânico e canadense se assemelham ao Brasil pelo sistema socializado e baseado na atenção primária. Pesquisadores apontam nessas nações o uso racional da alta tecnologia, considerada um problema hoje nos Estados Unidos, com excesso de dependência de exames —o que encarece os custos.

—O médico acaba pedindo exame para não ser processado por não ter pedido —explica Jaderson. —O modelo britânico é muito zeloso do gasto na questão médica. Não desperdiça dinheiro e é muito exigente quanto às evidências de que um remédio funciona ou de um equipamento é importante.

Karen Aarts, holandesa que estudou em Porto Alegre
“Aqui, todo mundo recebe tratamento rápido”

Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Karen Aarts, 31 anos, holandesa, trabalha em projetos de políticas públicas na Holanda. Ela morou três anos em Porto Alegre, onde fez mestrado em Administração na UFRGS.

“A Holanda tem um sistema de saúde semiprivado. Não temos diferença entre particular e SUS, como no Brasil. Todo mundo é obrigado a ter plano de saúde privado, mas depende de quanto você ganha. Não é igual para todos. Não temos o SUS, mas temos muitas marcas de planos de saúde particulares. 

O governo supervisiona as empresas, para que não cobrem demais dos usuários. O Estado tem de concordar com o que estão fazendo. As regras são feitas para o país inteiro. Por isso, nossos idosos têm direito de ir para uma casa (de atendimento de saúde). Essas também são semiprivadas. É muito difícil comparar o Brasil com a Holanda, por causa das diferenças de tamanho. A Holanda é nada em comparação com o Brasil. Em um país pequeno, é muito mais fácil estruturar todas as áreas. 

O Brasil tem diferentes climas, estruturas de serviços. Aqui, não temos o problema de que as pessoas não possam chegar até um local (para receber atendimento de saúde). Aqui, sempre você pode chegar. Em três horas, estou na Alemanha. A diferença é que aqui todo mundo tem um plano de saúde, recebe um tratamento rápido, sem problemas e com a mesma dedicação dos médicos. 

Igualdade é uma coisa muito mais relevante para a Holanda do que no Brasil. No Brasil, depende de onde você nasceu, em qual família nasceu, é uma questão de sorte. O tipo de saúde que você vai receber depende do seu salário e de quanto pode pagar. Para mim, é muito estranho que, só porque você tem dinheiro, irá receber melhor atendimento de saúde do que outras pessoas, terá mais acesso a um especialista ou não terá de esperar tanto tempo. Na Holanda, isso é igual. 

No Brasil, era estranho ver que, mesmo se você tivesse dinheiro para pagar plano de saúde particular, você vai para a saúde pública, o SUS. Se você tem dinheiro para pagar, porque ocupa o sistema de saúde público? O SUS deveria cobrar das pessoas que tem mais dinheiro.”